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"O pior da crise passou para os bancos médios", diz presidente do Panamericano

[ IG - Economia / Online - 2013-04-01 - pág: Online ]

"O pior da crise passou para os bancos médios", diz presidente do Panamericano

IG - Economia - None - NOTÍCIAS - 01/04/2013

 

 

Brasil Econômico/Murillo Constantino Acar, do PanAmericano: "Ainda tivemos prejuízo em 2012, mas continuo confiante de que atingiremos o equilíbrio até o final deste ano"

 

O presidente do banco PanAmericano, José Luiz Acar, 61 anos, já viu de quase tudo em seus quase 40 anos de mercado financeiro. E, para ele, o pior momento de crise entre os bancos médios já passou. "Atividade bancária tem riscos, mas o ambiente melhorou muito, não vejo problemas sérios", disse, em entrevista ao BRASIL ECONÔMICO na nova sede do banco, na Avenida Paulista. Também para o PanAmericano os problemas estão, pouco a pouco, sendo equacionados. "O primeiro trimestre deste ano foi bem melhor do que o do ano passado", diz, sem revelar números, que devem ser divulgados apenas na primeira semana de maio. Em 2012, o banco reportou prejuízo de mais de R$ 400 milhões. Mas Acar mantém a confiança de entrar no azul ainda neste ano.

O executivo começou no antigo BCN, em 1971, onde passou por diversas áreas, e foi absorvido pelo Bradesco em 1997, quando o então maior banco privado brasileiro comprou a instituição de Pedro Conde. Lá ficou por 13 anos, dos quais os últimos quatro no banco de investimentos da instituição. Em outubro de 2010, juntou-se ao time de André Esteves no BTG Pactual onde, três meses depois, assumiu a desafiante missão de reestruturar o PanAmericano - o BTG concordara em aportar R$ 450 milhões para ajudar o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) a salvar o banco do Grupo Silvio Santos de uma segunda crise depois da descoberta de fraudes contábeis (a instituição havia recebido uma injeção de recursos da Caixa Participações em 2009). Desde então, Acar e sua equipe já conseguiram quitar quase R$ 1,5 bilhão em dívidas, dobrar para R$ 1 bilhão a média mensal de novas operações de crédito, reforçar o negócio de seguros e comprar, por R$ 940,4 milhões, a BFRE, uma das maiores provedoras de serviços financeiros com foco exclusivo no setor imobiliário.

Esta, aliás, é a grande aposta do banco atualmente. A presença da Caixa, maior especialista em crédito imobiliário no Brasil, no capital do PanAmericano foi uma das principais razões pelas quais o BTG Pactual aceitou entrar no banco. Depois da compra da BFRE, aprovada pelo Banco Central em julho do ano passado, Acar considera que o PanAmericano é hoje uma das instituições brasileiras mais preparadas para aproveitar o crescimento dos financiamentos a imóveis. "O crédito imobiliário tem muito espaço para crescer no Brasil", diz. Atualmente, está em 6,2% do PIB, enquanto as linhas de crédito ao consumo, mais caras, representam uma fatia muito maior. Para Acar, o crédito imobiliário tende a substituir essas linhas mais caras no futuro. Para reforçar a área, vai unificar a equipe de vendas da BFRE com a do banco.

O executivo revela satisfação com o trabalho realizado até agora, mas admite que ainda há muito a fazer, e evita fazer previsões de crescimento. "Nossa base de comparação é muito baixa. Além disso, temos uma política de cessão de carteiras de crédito, que faz parte da estratégia de reestruturação, o que dificulta fazer previsões. Dependendo das condições de mercado, vendemos mais e retemos menos, ou vice-versa. Varia muito."

***

Dois anos depois, qual o saldo da sua gestão à frente do PanAmericano?

Foi um período duro, já esperávamos que seria difícil reconstruir o banco, mas hoje vemos progressos grandes. O maior progresso foi na estruturação do negócio em si, foi estabelecer uma definição clara de qual a estratégia e as principais linhas de negócios o banco vai perseguir. A partir daí, fomos nos posicionando no mercado.Mas ainda há muito a ser feito. Não posso revelar números, mas posso dizer que o primeiro trimestre foi muito melhor do que o primeiro trimestre do ano passado. Já conseguimos quitar quase R$ 1,5 bilhão em dívidas, originar em 2012 mais de R$ 1 bilhão ao mês em novas operações de crédito, reforçar o negócio de seguros e comprar, por R$ 940,4 milhões, a BFRE, uma das maiores provedoras de serviços financeiros do Brasil com foco exclusivo no setor imobiliário. No ano passado, ainda tivemos um prejuízo de mais de R$ 400 milhões. Mas continuo confiante de que o banco conseguirá atingir o equilíbrio até o final do exercício. Acho que este será um ano melhor do que 2012, para o banco e para o Brasil.

E para o segmento de bancos médios, onde o PanAmericano atua, qual é a sua visão? Ainda há instituições com problemas? Ainda há oportunidades para fusões e aquisições?

Acho que o pior já passou. Atividade bancária é uma atividade de risco, então não é possível garantir que não haverá problema algum. Mas não vejo nada sério neste momento. Sobre oportunidades de fusões, acho também que sobraram poucas. A fase de grande consolidação já passou.

Em qual estágio da recuperação o PanAmericano se encontra hoje?

Já estamos bem posicionados no mercado. Nossa estratégia envolve cessão de carteiras, para liquidar dívidas, e foco em quatro segmentos: seguros (e corretagem), carteira hipotecária (financiamento de imóveis), produtos e serviços taylor made para empresas do "alto" middle market (com faturamento de R$ 100-150 milhões até R$ 700-800 milhões anuais) e financiamento ao consumo, principalmente veículos - mas também crédito consignado. Estamos investindo na melhoria de processos. Estamos com uma equipe montada, comprometida, motivada, competente. Isso também é muito importante. Os cargos principais já estão preenchidos, mas para nós, contratar mais gente boa sempre faz sentido. Até porque temos perspectiva de crescimento. Enfim, achamos que não estamos no estágio de ideal em nada, sabemos que temos de melhorar - mas temos muito espaço para crescer.

De tudo o que foi feito, o que gerou melhores resultados, e o que falta fazer?

Na área de financiamento a empresas, crescemos bastante e queremos mais. As metas vem sendo cumpridas muito bem. Não fazemos varejo, nem o middle de faturamento anual mais baixo, nem as grandes companhias, que já são bem atendidas pelos grandes bancos. Queremos explorar as oportunidades para operações estruturadas, há demanda desses clientes do "alto middle market" para isso.

E na área de seguros?

Acabamos de contratar um presidente, o José Macedo. Somos fortes em seguro de vida, mas queremos avançar em outros ramos, como seguro patrimonial e microsseguros - já conseguimos autorização da Susep no final do ano passado para trabalhar com essa modalidade. Queremos ter uma grade completa, para atuar como seguradora ou como originadora de contratos. Queremos uma diversificação maior. O negócio de seguros no Brasil tem muito espaço para crescer. E como somos fortes no ramo imobiliário, também fazemos seguro para imóveis.

O banco tem tradição em financiamento de veículos, o que inclusive motivou a Caixa a comprar uma participação em 2009. Mas no ano passado esse mercado foi muito difícil para os bancos, pela alta na inadimplência. Como o PanAmericano está administrando isso?

De fato, essa sempre foi uma linha de negócios muito forte aqui no banco. Colhemos no ano passado os frutos de financiamentos errados concedidos dois anos antes. Mas o que estava errado ficou para trás. Os novos contratos estão com um bom desempenho, então, como dizemos, "na margem" a operação vai bem, a qualidade do crédito melhorou muito, mas ainda vai levar um tempo para que a carteira como um todo reflita essa correção de rota, que todos os bancos fizeram, não apenas o PanAmericano. Temos parcerias com revendas que estão sendo cada vez mais receptivas. Estamos bem posicionados em automóveis e motos, queremos agora reforçar parcerias para financiamento de caminhões, utilitários e equipamentos. Vemos espaço para crescer aqui também.

Quanto vocês preveem aumentar a carteira de crédito em 2013?

Terminamos 2012 gerando R$ 1 bilhão por mês em novos empréstimos, o dobro do que tínhamos no começo do ano. Já é muito bom, mas queremos mais. Queremos crescer bem acima do mercado, temos quase essa obrigação. No entanto, não costumo dar "guidance" de crescimento de crédito...

Por que não?

Por duas razões. Primeiro, porque saímos de uma base muito baixa, então qualquer previsão pode dar margem a interpretações distorcidas; crescer 30%, 40%, 50% para nós não é um esforço tão grande quanto é para um banco com uma base robusta de ativos, que cresce 15%. Uma previsão de aumento de 40% poderia parecer loucura, irresponsabilidade, quando na verdade, para nós, não seria. Segundo, porque fazemos cessão de carteiras de crédito. Então, em alguns meses cedemos mais e retemos menos do que originamos em operações e contratos, em outros menos - e vice-versa. Quando cedemos mais, crescemos menos. Isso também poderia distorcer qualquer previsão. Tem meses que cedemos tudo o que originamos, noutros meses retemos... A cessão de carteiras faz parte da estratégia para levantar recursos e quitar dívidas do banco.

Até quando o banco continuará usando essa estratégia?

Nosso foco principal é em originação. É uma estratégia que adotamos desde o começo. Mas ficar com ou repassar o que originamos vai sempre depender de oportunidades de mercado. No entanto, a tendência natural é ceder cada vez menos, e reter cada vez mais. Agora estamos mais confiantes para reter mais contratos de crédito, e equilibrar essa relação. Se ceder mais, cresço menos; se ceder menos, cresço mais. Então o importante é a estratégia. Minha meta é muito forte em termos de originação. Para isso trabalhamos na qualidade da análise e na segurança das operações. Temos uma securitizadora no grupo, então parte dos contratos de crédito são cedidos a fundos de recebíveis também. Aliás, esse mercado (de securitização) também tem muito espaço para crescer.

Quais alternativas de funding o banco considera?

Estamos bastante abertos a diversas formas de captação, além da cessão de carteiras que fazemos, inclusive a possibilidade de emitir bônus no exterior. Desde que assumimos a gestão, não captamos mais no exterior. O banco tem alguns bônus antigos - inclusive um captado em 2010, por 10 anos, sob a forma de dívida subordinada, o que se soma ao capital do banco e, portanto, amplia a capacidade de dar crédito. Por enquanto, estamos apenas quitando esses papéis. Já os recursos do DPGE (títulos emitidos por bancos com garantia do FGC) ficaram caros agora, porque ao usá-los, temos de recolher, de saída, 1% para o FGC. Também aqui, portanto, só liquidamos empréstimos antigos. Desde que chegamos até dezembro, liquidamos R$ 1,5 bilhão - o banco tinha R$ 2 bilhões. Mesmo alguns bônus, emitidos em um tempo que os juros estavam maiores, ficaram caros, precisamos quitar... Por isso isso estamos agora administrando e liquidando passivos caros. Hoje, eu diria que o custo da captação do PanAmericano é compatível com o rating dos acionistas, dois bancos com risco muito baixo (BTG e Caixa). Mas vai cair mais.

Existe um prazo para atingir o equilíbrio e voltar a dar lucro?

Temos um planejamento, mas não temos uma data estipulada para chegar ao azul. Já cumprimos uma boa etapa, mas ainda temos um caminho a percorrer, ainda resta herança do passado. Olhando na margem o banco está bem, mas olhando para os resquícios do passado, ainda falta melhorar.

Após a compra da BFRE, ficou ainda mais evidente a aposta que o banco decidiu fazer na área de financiamentos imobiliários. Quais serão os próximos passos?

Realmente, esse é uma das principais apostas do grupo. O crédito imobiliário foi um dos principais motivadores para o BTG colocar R$ 450 milhões no PanAmericano em 2011. A aquisição da BFRE, um ano depois, fez muito sentido. Ela é uma companhia muito especializada. A sinergia está espetacular. As lojas do Pan passaram a contar com gente da BFRE para trabalhar na originação, que é o grande desafio. Foi feito um trabalho intenso de treinamento de pessoal, alocação de pessoas e sistemas para poder suportar a operação. Hoje temos mais ou menos 300 pontos de venda, entre a estrutura que veio da BFRE mais as que o Pan já tinha, além de correspondentes. Temos uma boa rede de distribuição e de originação de negócios. A equipe da BFRE faz a diferença, conseguimos prestar um serviço diferenciado para quem quer comprar seu imóvel - não apenas damos o crédito, damos assistência ao cliente; se você vai hoje a uma agência e não é um cliente especial, talvez não receba a assessoria adequada. Não entregamos apenas uma lista de documentos. Temos um serviço diferente da concorrência. Crédito imobiliário será um bom negócio por muitos anos. E traz a fidelização dos clientes.

Qual é o público alvo do PanAmericano, de qual faixa de renda?

Sempre pensamos em explorar os contratos fora do Sistema Financeiro da Habitação, onde a Caixa já tem 70% do mercado. Mas os valores variam, de baixa até a alta renda - e atender os clientes da alta renda só ficou viável pela parceria com a Caixa. Com a tradição e a experiência da Caixa de um lado, e a agilidade e inovação da BFRE de outro (a empresa foi a primeira a lançar crédito imobiliário por um prazo de 30 anos), acho que o PanAmericano é hoje uma das instituições com mais vantagem competitiva, mais bem preparada para concorrer nesse segmento, que tem muito espaço para crescer. Essa é uma aposta firme dos acionistas.

O banco estuda atualmente oportunidades para comprar alguma outra instituição ou companhia hipotecária?

Nossa prioridade é crescer organicamente. A BFRE é uma das maiores provedoras de serviços financeiros com foco exclusivo no setor imobiliário do Brasil, atuando em todo o território nacional. A companhia atua em financiamento imobiliário para pessoas físicas, por meio da Brazilian Mortgages; no financiamento para construção a incorporadores e construtores, também por meio da Brazilian Mortgages; e na aquisição de recebíveis imobiliários e emissão de certificados de recebíveis imobiliários, por meio da Brazilian Securities, que é a maior companhia securitizadora do Brasil. A aquisição, autorizada pelo Banco Central em julho do ano passado, teve três objetivos: adicionar uma plataforma consolidada de originação de créditos com margens atraentes; garantir a expansão de seu portfólio de produtos em um mercado com grande potencial de crescimento; e ampliar sua rede de distribuição, com a incorporação dos 99 pontos de venda da BM Sua Casa. Estamos indo muito bem nesse sentido.

E como será essa expansão orgânica?

Estamos agindo em várias frentes. Uma delas é a oferta de serviços e produtos inovadores. A outra é a integração das equipes da BFRE e do Pan - em breve teremos uma unidade de comando único da rede, com fortalecimentos das equipes de originação e venda de produtos. No começo de março, lançamos o CrediCasa Medida Certa, uma linha de crédito pré-aprovado de até 60% do valor do imóvel dado em garantia pelo cliente. É como um refinanciamento, portanto, tem juros mais baixos como o crédito imobiliário: 1,10% ao mês mais a correção pelo IGP-M, taxas portanto inferiores às do crédito pessoal - que em média superam 3% ao mês-, e às do consignado, cujas taxas mensais variam entre 1,5% e 2,5% ao mês. O limite fica disponível por cinco anos, e o prazo de quitação da dívida é de até 30 anos. É um crédito para aproveitar oportunidades, como investir num negócio de família ou financiar os estudos. Acreditamos que o crédito imobiliário, que hoje representa 6,2% do PIB - portanto, menos do que outras linhas de curto prazo muito mais caras - tem tudo para substituir essas linhas no futuro. É uma modalidade que já no existe no exterior, mas no Brasil, por enquanto, só nós estamos oferecendo.

O banco também pensa em outras opções, como parcerias, para alavancar o crédito imobiliário?

Sim, estamos reforçando isso também. Vamos expandir os canais atuais e criar outros, além das lojas próprias, imobiliárias, financeiras, agências e correspondentes bancários. Teremos uma equipe destacada para ampliar de forma significativa esse posicionamento.

Quais as diferenças que o senhor encontrou ao se associar à equipe do BTG em 2010, depois de tantos anos trabalhando em grandes bancos de varejo como BCN e Bradesco?

Encontrei mais semelhanças do que diferenças. A única grande diferença é tamanho. Mas ambos querem fidelizar clientes, aumentar a eficiência, crescer, encontrar boas oportunidades de negócio.

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